Sempre escuto esse tipo de pergunta: "como faço pra ser quadrinista? Onde devo estudar? Como eu chego lá?". Infelizmente, com 10 minutos de conversa eu percebo que as perguntas que a pessoa realmente quis fazer foram: "como eu ganho dinheiro com quadrinhos? Tem universidade pra isso pra convencer meus pais? A quem eu devo enfiar aquela minha história de 300 páginas que é um recorte mal-feito de tudo o que acho legal?". Interessante ver isso e bacana que as pessoas se interessem por esse tipo de coisa, mas o processo todo não é bem assim. As histórias em quadrinhos possuem muitas vertentes e são formas de arte ainda vista como marginais, então antes que se decida escolhê-las como forma de vida, alguns esclarecimentos são precisos. Vou tentar com essas matérias esclarecer certos equívocos e sugerir saídas interessantes aos que escolheram quadrinhos como sua profissão.
Antes de tudo algo deve ser estabelecido: se dinheiro for a prioridade, abandone a ideia, e isso não é por conta dos quadrinhos em si, mas é porque é a atitude incorreta pra qualquer coisa que se decida fazer. Muita gente morre por conta de médicos que se formaram pensando em dinheiro, isso é errado. Pra aceitar uma profissão como essa é preciso sentir que ela faz parte de você - e não falo da baboseira de "é para ajudar o próximo", mas naquilo de que realmente clinicar é O desejo, O sonho, A única coisa que se ver fazendo. Dr. House pode ser um médico que não dá a mínima pros seus pacientes, mas ele é um grande médico porque ele ama o que faz. Isso serve para HQs também. Geraldo Borges é um dos caras mais felizes fazendo quadrinhos. Ele realmente passa uma energia boa, a mesma de um moleque de 10 anos que acabou de ganhar o melhor presente de Natal do mundo. Certa vez conversando com ele, o cara me disse: "A verdade é que eu só me sentiria bem se fizesse alguma coisa ligada a quadrinhos. Qualquer coisa". Então, fazer quadrinhos é algo que você sente que quer fazer pelo resto da vida? Sim? Então, continue lendo.
Sobre formas de se especializar, dependendo do que você realmente deseja, há cursos em vários lugares do país que envolvem desenho e narrativas em quadrinhos (acho que em cada capital de estado brasileiro há uma, em Fortaleza temos a Oficina de Quadrinhos da UFC como o mais tradicional, e os cursos dos estúdios Daniel Brandão e Quadrinhos), além, logicamente de cursos universitários que podem ajudar na ampliação dos conhecimentos ligados aos quadrinhos - afinal, esta é uma forma de arte incrivelmente multidisciplinar que envolve aspectos da literatura, design, desenho etc. Mas a grande verdade é que quem realmente quer fazer quadrinhos, vai encontrar uma forma. Bá e Moon fizeram faculdade de artes plásticas - e quem entende o mínimo de quadrinhos, sabe quem são esses caras - então, você não precisa de uma faculdade, mas sim de atitude e vontade de aprender. E aí cai em um outro ponto importante: convencer os pais.
Entenda, não é porque são quadrinhos. Não é por conta do mercado. É porque são seus pais. Porque você sempre vai ser um reflexo dos sonhos, desejos e redenção dos erros deles. Desprenda-se disso. Você é seus próprios acertos e erros. Você é aquilo que você escolhe. O mundo pode se espernear, seus pais vão te ameaçar, vão gritar, vão se descabelar, mas será impossível eles deixarem de ser seus pais. E é impossível que você seja o que eles querem sem se frustrar com isso. Decida seus caminhos, faça suas escolhas, mesmo que erre com elas, o único que você decepciona é você mesmo e é muito mais fácil que você se perdoe.
Agora, leitor e aspirante a quadrinista, você entendeu as atitudes? Está pronto pra tomar essa decisão? Aviso logo, não será fácil, nada vai ser um mar de flores, nem no começo, nem no meio e menos ainda no fim, mas pode ser sim a certeza de seu sonho, o resultado de sua busca e a obtenção de felicidade pessoal. Repito: está pronto?
Luís CS
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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
O PODER DOS QUADRINHOS
Fotolog do Lene Chaves
Todos estão carecas de saber que os quadrinhos são formas de arte completas. Quando falo essa ideia quero dizer que as histórias em quadrinhos não servem simplesmente para entreter, mas informar, emocionar e fazer pensar, demonstrando com acidez e/ou bom humor as mazelas políticas, sociais e pessoais de seus autores, leitores e de outros que muitas vezes não fazem a mínima ideia que existem tais formas de expressão no mundo.
Exemplos assim não faltam, desde o Batman apolítico/apocalíptico/terrorista de Frank Miller em "Batman Dark Knight", passando pelo V de "V de Vingança" do famigerado Alan Moore, até os blockbusters como "Guerra Civil" - que não deixam de refletir uma sociedade com medo do "melhor amigo" - e isso sem falar dos cartunistas brasileiros, que possuem a cultura da crítica tão forte em suas raízes desde Henfil - e nos primórdios com Ângelo Agostini - que é quase impossível contar a quantidade de artistas nacionais que se utilizaram de sua criatividade pela "causa maior", por mais simples que seja, que é a de gerar o pensamento crítico no leitor comum, friccionando com suas piadas mordazes e humor inteligente o cérebro muitas vezes inerte ou "preguiçoso" dos homens cotidianos.
Mudando um pouco de discurso, mas sem sair do tema, a sociedade atual, deitada no berço esplêndido da comunicação sem fronteiras e na liberdade de expressão gerada pela internet - nem que seja rápida e imediata - deu aos seus cidadãos o direito de se expressarem como quiserem sobre o que quiserem no momento que desejarem, mas que, infelizmente, é mal utilizado, gerando uma grande onda de mensagens vazias ou incompreensíveis quando não mais recebidas como alívios risonhos pouco duradouros e vazios do senso crítico necessário.
Isso pra mim não é arte nem forma de expressão válida, mas, na melhor das hipóteses, comédia de tarde de domingo, tão descartável quanto esquecível.
Impressionou-me então a tira que inicia esse post, uma verdadeira ilha de inteligência em meio à grande quantidade de mensagens bobas da internet, onde o autor - Lene Chaves, talvez um dos melhores do gênero - com um senso de humor mordaz e uma sagacidade de pensamento sem tamanho, conseguiu pegar um acontecimento triste, mas aparentemente sem resolução, e fazer-nos pensar sobre a atitude daqueles que proliferaram a ideia de: "condenar ela, devemos", sem antes sequer saber se a foto divulgada do caso era verdadeira ou falsa e correspondia à pessoa que cometeu o delito.
Vejam bem, em dois quadros Lene conseguiu criticar a atitude dos internautas, da ré e daqueles que se calaram diante o caso. Uma verdadeira pérola. Isso ao meu ver é quadrinho engajado, é quadrinho inteligente e crítico - por mais que por alguns possa ser considerado sem tato.
Não estou aqui dizendo que o entretenimento - leve, sem grandes desejos além do comportado em seu significado - deva ser deixado de lado, mas acredito que faltam mais exemplos como esse, em que a sociedade direcione seu olhar pra se si própria, suas atitudes e pensamentos, suas novas formas de relacionamento com as notícias e com as informações que são bombardeadas a cada link na grande rede.
Lene Chaves foi um que fez isso. Sinceramente espero que ele não seja o único.
Todos estão carecas de saber que os quadrinhos são formas de arte completas. Quando falo essa ideia quero dizer que as histórias em quadrinhos não servem simplesmente para entreter, mas informar, emocionar e fazer pensar, demonstrando com acidez e/ou bom humor as mazelas políticas, sociais e pessoais de seus autores, leitores e de outros que muitas vezes não fazem a mínima ideia que existem tais formas de expressão no mundo.
Exemplos assim não faltam, desde o Batman apolítico/apocalíptico/terrorista de Frank Miller em "Batman Dark Knight", passando pelo V de "V de Vingança" do famigerado Alan Moore, até os blockbusters como "Guerra Civil" - que não deixam de refletir uma sociedade com medo do "melhor amigo" - e isso sem falar dos cartunistas brasileiros, que possuem a cultura da crítica tão forte em suas raízes desde Henfil - e nos primórdios com Ângelo Agostini - que é quase impossível contar a quantidade de artistas nacionais que se utilizaram de sua criatividade pela "causa maior", por mais simples que seja, que é a de gerar o pensamento crítico no leitor comum, friccionando com suas piadas mordazes e humor inteligente o cérebro muitas vezes inerte ou "preguiçoso" dos homens cotidianos.
Mudando um pouco de discurso, mas sem sair do tema, a sociedade atual, deitada no berço esplêndido da comunicação sem fronteiras e na liberdade de expressão gerada pela internet - nem que seja rápida e imediata - deu aos seus cidadãos o direito de se expressarem como quiserem sobre o que quiserem no momento que desejarem, mas que, infelizmente, é mal utilizado, gerando uma grande onda de mensagens vazias ou incompreensíveis quando não mais recebidas como alívios risonhos pouco duradouros e vazios do senso crítico necessário.
Isso pra mim não é arte nem forma de expressão válida, mas, na melhor das hipóteses, comédia de tarde de domingo, tão descartável quanto esquecível.
Impressionou-me então a tira que inicia esse post, uma verdadeira ilha de inteligência em meio à grande quantidade de mensagens bobas da internet, onde o autor - Lene Chaves, talvez um dos melhores do gênero - com um senso de humor mordaz e uma sagacidade de pensamento sem tamanho, conseguiu pegar um acontecimento triste, mas aparentemente sem resolução, e fazer-nos pensar sobre a atitude daqueles que proliferaram a ideia de: "condenar ela, devemos", sem antes sequer saber se a foto divulgada do caso era verdadeira ou falsa e correspondia à pessoa que cometeu o delito.
Vejam bem, em dois quadros Lene conseguiu criticar a atitude dos internautas, da ré e daqueles que se calaram diante o caso. Uma verdadeira pérola. Isso ao meu ver é quadrinho engajado, é quadrinho inteligente e crítico - por mais que por alguns possa ser considerado sem tato.
Não estou aqui dizendo que o entretenimento - leve, sem grandes desejos além do comportado em seu significado - deva ser deixado de lado, mas acredito que faltam mais exemplos como esse, em que a sociedade direcione seu olhar pra se si própria, suas atitudes e pensamentos, suas novas formas de relacionamento com as notícias e com as informações que são bombardeadas a cada link na grande rede.
Lene Chaves foi um que fez isso. Sinceramente espero que ele não seja o único.
Luís CS - redator do roteirozeapneia.blogspot.com, especialmente para o FQCE.
Atualizando a postagem já que o debate ganhou vulto. Primeiro o que está em questão não é a ação de um ou outro cartunista, mas a noção de limite que o artista impõe (ou não) a seu trabalho, assim como a perspectiva da mensagem cartunizada ter diversas interpretações ou dessa mesma mensagem ser mal interpretada. Essa é uma discussão não somente válida, mas importante para o amadurecimento profissional de quem lida com humor, cartum, charge e tira. Até onde vai o derecionamento do artista na construção de sua mensagem e até onde pode ir a interpretação dessa mensagem. A arte que abriu o debate veio do Lene Chaves, mas poderia ter sido qualquer outra algo do Angeli, Laerte, Mino ou do X, como esta abaixo. E por sinal essa tyira do X, faz a piado do Lene parecer brincadeira de parquinho.
JJ Marreiro - cartunista
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